Chamada Aberta #1: Garagem Beleza

Depoimento Márcio Barreto

A importância inegável de possibilitar o encontro, faz desse festival o combustível para interessantíssimas pesquisas sobre o material sonoro criado por artistas experimentais e pensadores que enxergam a música do mundo ao redor e dentro de si. Trazer à tona esse universo desconhecido e imponderável, com o qual a música de invenção dança, é a possibilidade de criar outros mundos, efêmeros, mas inesquecíveis, que nos trazem novas formas de pensar e sentir. Nesse sentido, o improviso nos desperta a escuta em um nível de diálogo que deveria servir de inspiração para esse atual corredor de monólogos que tão bem retrata a contemporaneidade.

Improvisar, é escutar e falar com novos sentidos, é dialogar consigo e com o outro através de um estado de atenção plena sobre a potência do aleatório, na mudança de cada nota, ruído, silêncio. É observar o entorno dentro e a partir do objeto arte. Grandes músicos fizeram e fazem parte desse festival, contribuindo enormemente para a expansão desse universo paralelo e infinito que orbita a criação em tempo real. Agradeço a todos pela luta e o prazer incansável de fazer uma arte única, que nada contra a corrente da mesmice e alarga o horizonte do pensamento, desse mar selvagem que chamamos de música de improviso.

Para o 11º Improfest, separei alguns instrumentos convencionais como clarinete, trompete, escaleta, flauta, rabeca, pandeiro, tamborim, berimbau de boca, e alguns outros como o gritante (feito de chifre de boi e bocal de trompete), assim como objetos do cotidiano (chuveiro de chaves, grades de metal, etc.) A poesia serviu como instrumento narrativo em meio aos caos silencioso do som. Procurei sentir a história de cada um, de cada músico que naquele momento mostrava seu avesso, esse universo particular que ora se retrai, ora se expande rumo ao desconhecido inevitável da vida.

Assim que fizemos a primeira entrada, recebemos a notícia que chamariam a polícia, caso continuássemos. Tocamos com a cortina fechada, o que de certa forma, representa esse cinema invisível que é a música.

Agradeço o convite de Paulo Hartmann que há tanto acompanho e admiro, por proporcionar encontros tão potentes e significativos para a música. Que o festival se propague em inquietudes.


Márcio Barreto

Mestre em Estudos Culturais (EACH - USP/SP). Produtor cultural, escritor, editor, ilustrador, músico, compositor, cineasta e intérprete-criador em dança. Publicou mais de vinte livros, entre eles: Mundocorpo (poesia), Mar selvagem (poesia), Poéticas do agora (ensaios), A desmemória e seus outros nomes (poesia), As ruínas do Forte de São Luiz (pesquisa histórica para o IPHAN). Curador, organizador e produtor de festivais de arte e cultura na Baixada Santista, São Paulo e Rio de Janeiro. Ganhador dos Prêmios: FACULT 2014-2023 (Prefeitura de Santos / Secretaria de Cultura); ProAc 2015 – Circulação de Espetáculo - Artes Cênicas Público – CUPINZEIRO; ProAc 2017 – Produção de Espetáculo Inédito e Temporada de Dança - DARK ROOM; ProAc 2018 – Circulação de Espetáculo de Dança - MAR E CELESTE; ProAc Municípios 2019 – 4ª Semana da Cultura Caiçara de São Vicente; ProAc 2020 – 54º Festival Música Nova Gilberto Mendes; ProAc Aldir Blanc 2020 – 55º Festival Música Nova Gilberto Mendes; ProAc Direto 2021 – Festivais – 56º Festival Música Nova Gilberto Mendes (1º lugar); Tradição SP 2021 – 6ª Semana da Cultura Caiçara de São Vicente; Tradição SP 2022 – 7ª Semana da Cultura Caiçara de São Vicente; ProAc 2022 – Festivais – 57º Festival Música Nova Gilberto Mendes; ProAc LPG 2023 – Curta-metragem “O poeta de Euclydes”. ProAc LPG 2023 – Longa-metragem “Mar Selvagem”(selecionado para pitching); ProAc 2024 - Pesquisa e publicação cultural “A reinvenção do futuro”.

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